terça-feira, 15 de setembro de 2009

O preço real


Durante uma aula na faculdade, mesmo sem ter muito a ver com a matéria, alguns alunos comentavam sobre os preços dos combustíveis. Alguém disse que o álcool está barato e o professor interveio.
Nos lembrou da cruel realidade dos trabalhadores da indústria da cana-de-açúcar, que nós conhecemos bem, e ainda assim nos esquecemos constantemente. Nós e nossos representantes. Falou das estatísticas de doenças, acidentes e mortes entre os adultos e crianças, escravos nos regaços, e depois de apresentar todos esses dados e fatos dignos da nossa vergonha ele gritou, indignado: “AINDA ACHA O ÁLCOOL BARATO?”
Na verdade é caríssimo, mas não somos nós que pagamos o preço real.
De repente me deu um estalo e me lembrei que Ferreira Goulart já havia exortado em relação a isso. Não referente ao álcool, mas a indústria da cana-de-açúcar:



O AÇÚCAR (Ferreira Goulart)

O branco açúcar que adoçará meu café
Nesta manhã de Ipanema
Não foi produzido por mim
Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
E afável ao paladar
Como beijo de moça, água
Na pele, flor
Que se dissolve na boca. Mas este açúcar
Não foi feito por mim.

Este açúcar veio
Da mercearia da esquina e
Tampouco o fez o Oliveira,
Dono da mercearia.
Este açúcar veio
De uma usina de açúcar em Pernambuco
Ou no Estado do Rio
E tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
E veio dos canaviais extensos
Que não nascem por acaso
No regaço do vale.

Em lugares distantes,
Onde não há hospital,
Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome
Aos 27 anos
Plantaram e colheram a cana
Que viraria açúcar.
Em usinas escuras, homens de vida amarga
E dura
Produziram este açúcar
Branco e puro
Com que adoço meu café esta manhã
Em Ipanema.



(por Zé Mingau)