quarta-feira, 24 de março de 2010
Diálogos [1]
- Tem razão.
- Razão no que? Isso foi uma pergunta!
(por Zé Mingau)
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Numa tarde como outra qualquer...

Lá estávamos meu irmão e eu, sentados no chão fazendo aquele agradável nada, que hoje temos tanta dificuldade de fazer, e minha mãe nos observava.
Vi um pedaço de plástico no chão e puxei. Ele estava preso e não saiu. Era um saco enterrado, e numa radiante curiosidade, de uma intensidade que só crianças alcançam, comecei a cavar e não precisei nem dizer palavra alguma ao meu irmão. Praticamente junto comigo ele já tinha visto, e, ansioso por respostas, começado a cavar também.
No começo fiquei feliz com a ajuda, mas depois comecei a encara-lo como um concorrente.
Por medo de perder meu tesouro, sem parar de cavar, gritei: "SE FOR OURO É MEU!!!"
Minha mãe ria. "Tola! Acho que não entenderia a seriedade do assunto.". É o que eu devo ter pensado.
Meu irmão ainda cavava com toda sua força, mas com cara de pensativo, até que, como se uma luz tivesse brilhado sobre sua cabeça ele grita: "SE FOR UM CONTROLE REMOTO QUE CONTROLA MILHÕES DE ROBÔS É MEU!!!"
E parei...
Não cavei mais. Fiquei alí sentado, vazio, olhando o horizonte e pensando...
Como pude ser tão burro?
Como eu queria aqueles robôs!
Não o fiz, mas tive vontade de chorar. Vontade essa que só foi cortada pela decepção do saco vazio que meu irmão acabava de desenterrar.
Depois jogamos futebol e a tarde terminou inda bem divertida.
Mas no fundo ainda sentia...Queria muito os robôs...
(por Zé Mingau)
P.S.: Não escrevi este texto para o blog. O extraí de tópico homônimo, de autoria minha, da comunidade 'Brainstorm, idéias ao vento'.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Natal Capital
Dezembro chegou, arrastando com ele um monte de deslumbradas criancinhas famintas por presentes e o seu maravilhoso espírito capitalino...perdão, natalino.
É o nascimento de Jesus? Não, é um frenezi de vendedores e consumidores, onde a pregação de amor ao próximo é abafada pelas propagandas que tentam nos convencer 'quem não tem, não é', destruindo sonhos, plantando sementes de inveja e ambição nos coraçõezinhos amargurados dos que querem ser mas não podem ter.
Viva o marketing, criador de monstros!
(por Zé Mingau)
terça-feira, 15 de setembro de 2009
O preço real

Durante uma aula na faculdade, mesmo sem ter muito a ver com a matéria, alguns alunos comentavam sobre os preços dos combustíveis. Alguém disse que o álcool está barato e o professor interveio.
Nos lembrou da cruel realidade dos trabalhadores da indústria da cana-de-açúcar, que nós conhecemos bem, e ainda assim nos esquecemos constantemente. Nós e nossos representantes. Falou das estatísticas de doenças, acidentes e mortes entre os adultos e crianças, escravos nos regaços, e depois de apresentar todos esses dados e fatos dignos da nossa vergonha ele gritou, indignado: “AINDA ACHA O ÁLCOOL BARATO?”
Na verdade é caríssimo, mas não somos nós que pagamos o preço real.
De repente me deu um estalo e me lembrei que Ferreira Goulart já havia exortado em relação a isso. Não referente ao álcool, mas a indústria da cana-de-açúcar:
O AÇÚCAR (Ferreira Goulart)
O branco açúcar que adoçará meu café
Nesta manhã de Ipanema
Não foi produzido por mim
Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
Vejo-o puro
E afável ao paladar
Como beijo de moça, água
Na pele, flor
Que se dissolve na boca. Mas este açúcar
Não foi feito por mim.
Este açúcar veio
Da mercearia da esquina e
Tampouco o fez o Oliveira,
Dono da mercearia.
Este açúcar veio
De uma usina de açúcar em Pernambuco
Ou no Estado do Rio
E tampouco o fez o dono da usina.
Este açúcar era cana
E veio dos canaviais extensos
Que não nascem por acaso
No regaço do vale.
Em lugares distantes,
Onde não há hospital,
Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome
Aos 27 anos
Plantaram e colheram a cana
Que viraria açúcar.
Em usinas escuras, homens de vida amarga
E dura
Produziram este açúcar
Branco e puro
Com que adoço meu café esta manhã
Em Ipanema.
(por Zé Mingau)
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Amor à Causa

Sou um grande defensor das causas feministas.
Luto pela igualdade incessantemente e só descansarei quando homens puderem cuidar da casa e das crianças, e suas mulheres, proletárias, os puderem sustentar, sem serem ambos mal vistos por essa sociedade hipócrita e machista.
Certo dia estava sentado num ônibus e uma mulher se posicionou de pé ao meu lado, por falta de acentos disponíveis.
Me olhou por algum tempo e depois, num tom de brincadeira, mas jogando um verde, pediu, “Seja cavalheiro. Me ofereça seu lugar.”
Eu, sem rir ou esboçar reação, respondi secamente “Não!”, e abaixei minha cabeça.
Me senti como o Peter Parker, que temendo pela proteção da Mary Jane, por amor, lhe deu um toco em 'Homem Aranha', ou como aqueles garotos que, com grande pesar no coração, gritam com sua amiga cheeta pra que ela volte para seu habitat natural e viva como vivem as cheetas, num filme da Sessão da Tarde.
Me doeu bastante, mas eu o fiz. Por amor à causa.
Uma lágrima me correu no canto do olho enquanto eu pensava comigo: “Espero que um dia você compreenda, amiga. Espero que compreenda...”
(por Zé Mingau)
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Lições
Ele correu...
Como um louco. Das dunas ao forte.
Queria provar pra si mesmo que não era só um sedentário suburbano.
Queria provar que dominava outros territórios alem do escritório.
Ele sabia que isso não era verdade, mas se provasse viraria verdade.
Chegou ao forte, ofegante, o coração na boca, correu pela lateral e começou a escalar as pedras, agindo e grunhindo feito um selvagem.
Um pequeno escorregão não seria nada, não fossem as frieiras que lhe surgiram devido ao tempo que passava de sapato em dias de trabalho. Uma pequena e pontiaguda pedra lhe arranhou entre os dedos, e a dor foi tão aguda que soltou uma das mãos.
Curvou-se pra trás e caiu entre as pedras. Uma delas lhe feriu a nuca.
Agonizou por pouco tempo e seus olhos se fecharam definitivamente.
O que foi um alívio, pois a maré subia.
Se não fossem as frieiras ele teria alcançado o topo.
Estaria vivo. Muito mais do que sempre esteve.
Voltaria tão confiante que certamente conseguiria uma promoção.
Se eu fosse você, esfregaria bem esse pé...
O garoto assustado, com os olhos esbugalhados assentiu com a cabeça sem dizer uma palavra enquanto entrava no banheiro.
(por Zé Mingau)
sábado, 16 de maio de 2009
Incapacidade

Fui atravessar a rua e quase fui atropelado por um motorista retardado que não ligou a seta antes de virar a esquina.
Ele parou pouco a frente do ponto onde quase me atropelou.
Eu parei também e olhei pra ele, ainda com um pouco de esperança de ouvir um pedido de desculpa. Ele gritou um palavrão e me chamou de viado.
Não conseguiria mensurar o ódio que senti naquele momento.
Primeiro pelo incidente que poderia ter um final pior, depois pela minha incapacidade de fazer qualquer coisa.
Na hora, várias possibilidades me passaram pela cabeça: podia ter ido lá, e espancado o cara, mas não me garanto o suficiente, então reprovei. Podia ter xingado de volta, mas apenas isso não ia me fazer sentir melhor. Reprovei também. Podia tê-lo processado por me chamar de viado, mas não ia dar em nada. Porque sou hétero. Só viados tem o direito de processar por serem chamados de viados, o que não faz o mínimo sentido pra mim. Eu só posso processar se alguém me chamar de hétero? As possibilidades de alguém quase me atropelar e gritar “SEU MACHO!” são nulas. Isso reprova também a idéia do processo.
Tive raiva de mim também.
Cheguei ao ponto de pensar “Devia ter ficado na frente do carro.
Faria um estrago no capô e ainda sujaria o pára-brisa todo de sangue. Hahá!”
(por Zé Mingau)