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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Flexibilidade Ortográfica


Entendo por Flexibilidade Ortográfica a possibilidade de fletir o sentido das palavras até que se tornem o que eu quero que sejam.
Não que esse seja realmente o significado, mas é assim que eu quero que seja. E isso já é pôr em prática a minha teoria.
Nesse exato momento quero que Preocupação seja um doce feito com frutas cítricas e mel no norte da Miséria, que é um vilarejo muito fértil situado nos fiordes noruegueses.
Em Miséria, uma vez por ano comemora-se o Trabalho, que é uma data especial onde todos comem Preocupação deitados em suas redes enquanto lêem historinhas do Patrão, comediante local, e ao pôr do sol, enquanto assam Memorandos (semelhantes a marshmellows) na fogueira, relembram o quanto tinham medo da Demissão, uma espécie de ‘bicho papão’, que apesar de assustar as crianças, todos sabem que não existe.


(por Zé Mingau)

sábado, 16 de maio de 2009

Incapacidade



Fui atravessar a rua e quase fui atropelado por um motorista retardado que não ligou a seta antes de virar a esquina.
Ele parou pouco a frente do ponto onde quase me atropelou.
Eu parei também e olhei pra ele, ainda com um pouco de esperança de ouvir um pedido de desculpa. Ele gritou um palavrão e me chamou de viado.
Não conseguiria mensurar o ódio que senti naquele momento.
Primeiro pelo incidente que poderia ter um final pior, depois pela minha incapacidade de fazer qualquer coisa.
Na hora, várias possibilidades me passaram pela cabeça: podia ter ido lá, e espancado o cara, mas não me garanto o suficiente, então reprovei. Podia ter xingado de volta, mas apenas isso não ia me fazer sentir melhor. Reprovei também. Podia tê-lo processado por me chamar de viado, mas não ia dar em nada. Porque sou hétero. Só viados tem o direito de processar por serem chamados de viados, o que não faz o mínimo sentido pra mim. Eu só posso processar se alguém me chamar de hétero? As possibilidades de alguém quase me atropelar e gritar “SEU MACHO!” são nulas. Isso reprova também a idéia do processo.
Tive raiva de mim também.
Cheguei ao ponto de pensar “Devia ter ficado na frente do carro.
Faria um estrago no capô e ainda sujaria o pára-brisa todo de sangue. Hahá!”


(por Zé Mingau)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Mais feliz que os poetas


“Sozinho?”. Todo mundo perguntou isso. Sim, sozinho, oras! Qual o problema? O que tem de estranho nisso?
Como assim “o que você vai fazer na praia sozinho”? O que se faz numa praia, droga?
Ta bom, eu sei. Eu não gosto de praia, admito.
Mas fui pra lá andar. Caminhar ao lado do mar.

Num tem nada a ver com coisa de corno ou fossa!
É quase como um poeta, sabe?
Como o Carlos Drummond de Andrade, em Copacabana, ou Edgar Allan Poe num cemitério, sei lá.
Acho que a única diferença entre eu e os poetas é que eu não sei fazer poesia. Detalhe que eu ignoro.
Na verdade não é que eu não saiba fazer poesias.
É que eu ando por lugares belos, os contemplo, e é uma sensação perfeita.
Então eu canalizo todo esse bem estar e guardo só pra mim, diferente dos tolos poetas que o dividem com os outros, em suas poesias.
Acho então que posso dizer que sou mais feliz que os poetas.


(Por Zé Mingau)